Talvez não sejam coincidências, mas são circunstâncias surpreendentes. Uma lembrança de Natal trouxe-me um tão breve quanto profundo livro de Simone Weil, intitulado O Pai Nosso, editado o ano passado em Cascais, pela Lucerna, com um prefácio de François Dupuigrenet Desroussilles, bibliotecário da Biblioteca Nacional francesa.
Confesso a ignorância, é o seu primeiro escrito que leio e mais do que ler, estudei-o; não será, porém, o último porquanto, surpreendido e fascinado, encomendei de imediato mais dois, na versão francesa, para pode captar o modo como foram escritos. E aguardo, ansioso, que o correio os traga.
O conhecimento da sua pessoa já me tinha chegado, através dos livros de Gustave Thibon, o filósofo agricultor, difusor do jornal Témoignage Chrétien, órgão de resistência espiritual ao nazismo, dirigido pelo padre jesuíta Pierre Chaillet, e que a recebeu, na sua quinta agrícola, em Julho de 1941.
Cito esse momento do livro biográfico Au Soir de Ma Vie, memórias recolhidas por Danièle Masson, publicadas pela Plon, em 1993:
«Um amigo dominicano, o R. P. Perin, pedira-me para receber em Saint-Marcel uma jovem agregada em filosofia, militante de extrema-esquerda, que desejava trabalhar nos campos como camponesa. Agricultor, eu desconfiava dos intelectuais com desejos de regresso à terra e não tinha afinidades especiais com a extrema-esquerda. Mais o desejo de fazer um favor a um amigo e a simpatia de que gozavam os judeus por causa da ameaça que pesava sobe eles, bem como uma secreta curiosidade, inclinarem-me a aceitar».
Personagem difícil, Simone, segundo o relato de Thibon, que a cognomina como a "Virgem Vermelha", não só tinha relações agrestes com os outros, vivendo o sofrimento como vocação, como cruzava uma vontade férrea de afirmação com o contraditório desejo de apagamento, e de vida pobre, de anonimato, tudo amalgamado com um antisemitismo religioso estranho para quem era judia, intransigente face ao Absoluto, mas tolerante em política, nisso incluindo a quem lhe dera guarida, e nutria relações de convivência com o regime de Vichy e a aversão aos romenos.
Mais, e de novo Thibon, «fascinada por Deus, repugnava-lhe passar pelo caminho da Igreja», distinguindo nesta «o núcleo incorruptível da verdade» face ao que chamava «o animal totalitário».
E é aí que se dá o que é o tema de abertura deste livro natalício, a tradução do Pai Nosso para a língua grega. Thibon, uma vez mais, revela nas suas memórias dever-lhe o aprendizado da língua grega e o aprofundamento do conhecimento de Platão.
Agora nas palavras do prefaciador da obra: «Rezar o Pai Nosso foi algo que começou a fazer – não apenas todas as manhãs, mas várias vezes ao dia – durante as vindimas na região do Gard, onde se matava a trabalhar tornando-se essa oração parte integrante da “mística do trabalho” que, a seus olhos, permite uma adesão total a Cristo, uma vez que “nenhuma finalidade terrena separa os trabalhadores de Deus”»
Já interligadas duas pessoas, Gustave Thibon e Simone Weil, através de dois livros, eis a terceira, Frederico Lourenço e a monumental tradução da Bíblia, a partir do grego, agora que foi publicado o sexto volume, faltando o segundo tomo do volume cinco.
Para efectuar esta última associação pessoal, há que recuperar, primeiro, a palavra de François Desroussilles: rezar o Pai Nosso, não na tradução francesa ou em qualquer outra língua, sim na versão grega, fazia-o Simone não por snobismo, a que era avessa, sim «na continuidade do trabalho ao qual ela se entregava há já vários anos a propósito da “fonte grega” do cristianismo e que, no tempo da guerra e da ocupação, resultou, em Marselha, na publicação de textos fundamentais sobre Homero e as tragédias gregas que lhe permitiram, precisamente, pensar na guerra e na ocupação».
E importa notar depois que Frederico Lourenço, concomitantemente com a tradução grega da Bíblia, havia também traduzido Homero.
Creio que, se há um fio invisível a ligar os factos desta vida, será ele a dar lógica a este encadeado de pessoas e de escrita, e não apenas o desejo vulgar de eu ter tema para uma crónica.
Faltava, enfim, o encontro com o lugar. Simone Weil estivera em Portugal em 1935 e fora-lhe dado assistir a uma procissão de mulheres de pescadores na Póvoa do Varzim em invocação a Nossa Senhora pelo regresso dos seus maridos que sentiu, ante aqueles «cantos lancinantes», como uma autêntica «ferida mística» o arrebatamento da Fé. «Cristo, ele mesmo, desceu e tomou-me», diria.
No ano seguinte, com 27 anos, estava em Espanha ao lado das forças republicanas, onde a sua isenção de espírito lhe exigiu que se revoltasse com a violência inútil e a crueldade, dos seus próprios companheiros de combate, escrevendo: «Tive a sensação de que quando as autoridades temporais e espirituais colocam uma categoria de seres humanos fora daquelas cujas vidas têm valor, não há nada mais natural para o homem do que matar».
