Distribuiram-se as laranjas que me deram. Não ficou nem uma. Vejo agora que são o símbolo da vida, da fecundidade e da criação. Deu-se assim a capacidade de criar. Se alguma coisa tem sentido, isto tem sentido. Talvez seja entendido como amizade. Talvez não tenha de ser entendido. A força dos símbolos é esta: esvairem-se no sumo em que se esgotam, sem que se pense nisso ou em tal haja que pensar.
2.5.09
11.4.09
Trinta dinheiros
Segundo a tradição [Mateus, 27:5], Judas ter-se-ia enforcado de remorso, como um desesperado, por ter traído Jesus por trinta dinheiros de prata. A sua traição, porém, abriu a porta à morte de Cristo, entregando-o aos romanos. Diabolizado a partir do Novo Testamento, ele tornou-se a figuração da malignidade. A Malhação de Judas, no Sábado de Aleluia, é a forma de se reconciliar o povo com os valores da decência e da lealdade que o Iscariote quebrou. Os portugueses e os espanhóis levaram o costume para a América Latina. Com ele o bode-expiatório é um modo de se purgarem os pecados colectivos. Em alguns lugares queimam-no.
O embaraço é que, por aproximação fonética e etimológica, há países onde se chama «la quema del judio». Assim mesmo, anti-semiticamente.
9.4.09
O mistério
É a Páscoa que marca a diferença, não o Natal. Neste, até os pagãos e os indiferentes se reunem em torno da ideia que é a Festa da Família. Na Páscoa não. Ou a evangelização cristã cavou um sulco nas famílias e nos seus membros, ou ficam-se as criaturas pelas amêndoas e por outras doçuras, algumas em coelho. E, no entanto, a noção da ressureição é hoje um anseio catártico em muitos corações doridos. Continua, porém, a ideia cómoda de que seja um Messias que morra por nós na cruz, subrogando-se ao nosso sofrimento. Nisso continuamos a ser pecadores impenitentes.A verdade mais duvidosa é, porém, a de que esteja ali, cravado de espinhos, Deus humanizado. Não perdoaríamos à nossa humana mediocridade que o Impensável pudesse ser sentido deste modo tão doloroso.
Talvez seja essa a verdadeira natureza da Páscoa: o homem esperar pela redenção da sua condição de humano que ambiciona o pecado de pensar o Divino. O único incorpóreo, o Espírito Santo, esse, assim possível, garante a continuidade do mistério.
7.2.09
O espelho

Trouxe comigo um livro que se chama 1000 Faces de Deus. Iconográfico, tenta o que o judaísmo e o islamismo não consentem: a representação do Inefável. No Velho Testamento ele surge com um espelho, transmitindo a ideia de que somos, humanos, a sua imagem e semelhança. Aparente contradição! Se é imagem, como pode ser mera semelhança? A teologia explica: «A ideia é que pela criação, aquilo que é arquetípico em Deus tornou-se ectípico no homem». A Suprema Perfeição gera, assim, o imperfeito. Com uma formulação destas, a redenção torna-se impossível. O pecado original é, afinal, o do Criador, não o da criatura.
8.12.07
O Senhor da Pedra
Construída no século dezassete, num local de culto pagão, é a capela do Senhor da Pedra. Local de convergência de todos os sortilégios, perduram na areia os passos dos que buscam, no acaso do seu encontro, a benção para as suas vidas. É um héxagono, símbolo da duplicidade do triângulo convergente, alçado num rochedo, pertence ora à maciez da terra ora ao arrebatador do mar. «Quem não quiser morrer, não nasça», disse o mago que na adjacente casa da queima, esconjura o mal, invocando a protecção do anjo. Ante os círios que ali ardem, num voto de fé, o corpo gelado pela chuva, surge, como maré avassaladora, a salvífica força de viver.5.9.07
A palavra sagrada
A destinatária se souber perdoará que eu diga aqui que escrevi para um catálogo de uma exposição de pintura de quadros seus: «O que leva um homem a retirar-se para um vida de reclusão, nas margens de um qualquer Nilo desta vida, para em confinamento e tendo-se a si só como companhia, meditar, em segredo, na sublime ciência oculta que lhe restituirá a chave da vida?».
Sabendo apenas soletrar, não tenho resposta, ela talvez, cromaticamente, ao dar-me a primeira letra.
30.6.07
A Casa do Fundamento

1. Foi depois do Dilúvio. Os filhos de Noé, que com ele saíram da Arca, foram Sem, Cam e Jafé. «Esses três foram os filhos de Noé e a partir deles se fez o povoamento de toda a terra». Assim reza o Antigo Testamento.
2. Dispersos pelo mundo, rumaram então os homens para o Oriente e ali, na terra de Senear, a Babilónia, encontraram um vale, onde se estabeleceram e construíram uma cidade e uma torre, cujo ápice penetrava nos céus, a que se deu o nome de Babel. Vem no Pentateuco.
3. Todo o mundo se servia, então, de uma mesma língua e das mesmas palavras e, tendo a mesma língua, era um só povo. Para a sua torre erguerem, do tijolo que é pó fizeram pedra, do mole betume, que é lama, a argamassa.
À força de serem um só, ergueram-se às portas do céu. Conta-se no Génesis.
4. Foi então que Iahweh desceu sobre a terra e disse: «Eis que todos constituem um só povo e falam uma só língua. Isto é o começo das suas iniciativas! Agora nenhum desígnio será irrealizável para eles». E, por isso, os dispersou por toda a terra e confundiu toda a linguagem. É esta, na Bíblia, a história da Torre de Babel.
5. A narrativa da Torre de Babel é uma história exemplar, uma daquelas paisagens que se atravessam em diferentes direcções e, de cada ângulo, é sempre uma visão diversa que se tem do mesmo mundo.
6. No ângulo teológico ela é perturbadora da fé, porque aflige a crueldade de Iahweh, o senhor Deus, e os erros de que o Todo-Poderoso é, afinal, capaz. Iahweh, por causa de ter o homem, que ele criara à sua imagem e semelhança, comido o fruto proibido, havia lançado sobre a humanidade a danação eterna. E isto só porque, ao comê-lo, ao pomo da árvore da sabedoria, o homem se havia tornado, afinal, «versado no bem e no mal».
Iahweh, porque havia criado a maldade no homem, sobre o que o não queria versado, e vendo que «a maldade do homem era grande sobre a terra e que era continuamente mau todo o desígnio do seu coração», arrependeu-se, ele que é o Sapientíssimo, de ter criado o homem e decretou, ele que é o Sumo Amor, a sua erradicação da face da terra, mais os animais, os répteis e todas as aves do céu. E, assim, com instinto assassino, Iahweh lançou o dilúvio sobre a terra. Só Noé escapou, porque Noé «encontrou graça aos olhos de Iahweh».
6. É assim no Antigo Testamento: por causa do pecado original de Adão, pagam todos os da humanidade, sem culpa; porque Deus se arrependeu de ter gerado a maldade no homem, que criara semelhante a si, arrasou maldosamente a humanidade.
E, ao escapar Noé, nem se entende se foi por ser «justo e íntegro entre os seus contemporâneos», se foi porque, entre os da «terra pervertida», Noé «encontrou graça aos olhos de Iahweh».
Faltava só que, tendo Deus prometido para consigo que não mais amaldiçoaria a terra por causa do homem, tendo Deus feito mesmo uma aliança com todos os homens e animando-os a que se multiplicassem, povoassem a terra e a dominassem, assim eles, com a torre de Babel, tomaram a primeira das suas iniciativas, logo Ele os confundiu e dispersou.
7. Estranha teodiceia esta, que tais achados nos traz: erro, culpa, castigo, pecado, vingança, extermínio, acaso, graça, ambição, iniciativa, perversão e poder, está tudo aqui nesta narrativa que é «das origens do mundo e da humanidade», onde nos surpreende um Deus divino mas, visto seu comportamento, humano, demasiado humano.
8. A torre de Babel que sempre me impressionou foi, porém, a que coloca existencialmente o homem perante a sua condição absurda. A ambição, o sonho de grandeza, o ideal de imortalidade, tudo o que faz do homem o ladrão do fogo dos deuses, precipitam-no na queda abismal: é a danação do homem, condenado à sua natureza mortal. A pluralidade, a diversidade, a originalidade criativa, aquilo que lança Ícaro pelos céus do sonho, exilam-no para a sua condição degredada de estrangeiro na sua própria pátria. Joguete cego às mãos do acaso, instrumento de uma natureza maligna que não criou mas é obra do Criador, o homem caminha, inexorável, e com ele tudo quanto é vivo, para o patíbulo da morte mais cruel, afogado na penitência da sua culpa.
9. Vivemos hoje um século de confusão. Porventura mais grave, e que nos irá condenar, é termos confundido, a Ocidente, a Babel simbólica com a Babilónia terrestre e termos querido, imitando Deus, confundi-la e dispersá-la.
Tal como Xerxes I [479 AC], tal como Alexandre, o Grande [331 AC], esquecemos que nas margens do rio Eufrates está o lugar sagrado da aliança entre o homem e o seu Deus, «a casa do fundamento do céu e da terra».
2. Dispersos pelo mundo, rumaram então os homens para o Oriente e ali, na terra de Senear, a Babilónia, encontraram um vale, onde se estabeleceram e construíram uma cidade e uma torre, cujo ápice penetrava nos céus, a que se deu o nome de Babel. Vem no Pentateuco.
3. Todo o mundo se servia, então, de uma mesma língua e das mesmas palavras e, tendo a mesma língua, era um só povo. Para a sua torre erguerem, do tijolo que é pó fizeram pedra, do mole betume, que é lama, a argamassa.
À força de serem um só, ergueram-se às portas do céu. Conta-se no Génesis.
4. Foi então que Iahweh desceu sobre a terra e disse: «Eis que todos constituem um só povo e falam uma só língua. Isto é o começo das suas iniciativas! Agora nenhum desígnio será irrealizável para eles». E, por isso, os dispersou por toda a terra e confundiu toda a linguagem. É esta, na Bíblia, a história da Torre de Babel.
5. A narrativa da Torre de Babel é uma história exemplar, uma daquelas paisagens que se atravessam em diferentes direcções e, de cada ângulo, é sempre uma visão diversa que se tem do mesmo mundo.
6. No ângulo teológico ela é perturbadora da fé, porque aflige a crueldade de Iahweh, o senhor Deus, e os erros de que o Todo-Poderoso é, afinal, capaz. Iahweh, por causa de ter o homem, que ele criara à sua imagem e semelhança, comido o fruto proibido, havia lançado sobre a humanidade a danação eterna. E isto só porque, ao comê-lo, ao pomo da árvore da sabedoria, o homem se havia tornado, afinal, «versado no bem e no mal».
Iahweh, porque havia criado a maldade no homem, sobre o que o não queria versado, e vendo que «a maldade do homem era grande sobre a terra e que era continuamente mau todo o desígnio do seu coração», arrependeu-se, ele que é o Sapientíssimo, de ter criado o homem e decretou, ele que é o Sumo Amor, a sua erradicação da face da terra, mais os animais, os répteis e todas as aves do céu. E, assim, com instinto assassino, Iahweh lançou o dilúvio sobre a terra. Só Noé escapou, porque Noé «encontrou graça aos olhos de Iahweh».
6. É assim no Antigo Testamento: por causa do pecado original de Adão, pagam todos os da humanidade, sem culpa; porque Deus se arrependeu de ter gerado a maldade no homem, que criara semelhante a si, arrasou maldosamente a humanidade.
E, ao escapar Noé, nem se entende se foi por ser «justo e íntegro entre os seus contemporâneos», se foi porque, entre os da «terra pervertida», Noé «encontrou graça aos olhos de Iahweh».
Faltava só que, tendo Deus prometido para consigo que não mais amaldiçoaria a terra por causa do homem, tendo Deus feito mesmo uma aliança com todos os homens e animando-os a que se multiplicassem, povoassem a terra e a dominassem, assim eles, com a torre de Babel, tomaram a primeira das suas iniciativas, logo Ele os confundiu e dispersou.
7. Estranha teodiceia esta, que tais achados nos traz: erro, culpa, castigo, pecado, vingança, extermínio, acaso, graça, ambição, iniciativa, perversão e poder, está tudo aqui nesta narrativa que é «das origens do mundo e da humanidade», onde nos surpreende um Deus divino mas, visto seu comportamento, humano, demasiado humano.
8. A torre de Babel que sempre me impressionou foi, porém, a que coloca existencialmente o homem perante a sua condição absurda. A ambição, o sonho de grandeza, o ideal de imortalidade, tudo o que faz do homem o ladrão do fogo dos deuses, precipitam-no na queda abismal: é a danação do homem, condenado à sua natureza mortal. A pluralidade, a diversidade, a originalidade criativa, aquilo que lança Ícaro pelos céus do sonho, exilam-no para a sua condição degredada de estrangeiro na sua própria pátria. Joguete cego às mãos do acaso, instrumento de uma natureza maligna que não criou mas é obra do Criador, o homem caminha, inexorável, e com ele tudo quanto é vivo, para o patíbulo da morte mais cruel, afogado na penitência da sua culpa.
9. Vivemos hoje um século de confusão. Porventura mais grave, e que nos irá condenar, é termos confundido, a Ocidente, a Babel simbólica com a Babilónia terrestre e termos querido, imitando Deus, confundi-la e dispersá-la.
Tal como Xerxes I [479 AC], tal como Alexandre, o Grande [331 AC], esquecemos que nas margens do rio Eufrates está o lugar sagrado da aliança entre o homem e o seu Deus, «a casa do fundamento do céu e da terra».
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