O espelho


Trouxe comigo um livro que se chama 1000 Faces de Deus. Iconográfico, tenta o que o judaísmo e o islamismo não consentem: a representação do Inefável. No Velho Testamento ele surge com um espelho, transmitindo a ideia de que somos, humanos, a sua imagem e semelhança. Aparente contradição! Se é imagem, como pode ser mera semelhança? A teologia explica: «A ideia é que pela criação, aquilo que é arquetípico em Deus tornou-se ectípico no homem». A Suprema Perfeição gera, assim, o imperfeito. Com uma formulação destas, a redenção torna-se impossível. O pecado original é, afinal, o do Criador, não o da criatura.

O Senhor da Pedra

Construída no século dezassete, num local de culto pagão, é a capela do Senhor da Pedra. Local de convergência de todos os sortilégios, perduram na areia os passos dos que buscam, no acaso do seu encontro, a benção para as suas vidas. É um héxagono, símbolo da duplicidade do triângulo convergente, alçado num rochedo, pertence ora à maciez da terra ora ao arrebatador do mar. «Quem não quiser morrer, não nasça», disse o mago que na adjacente casa da queima, esconjura o mal, invocando a protecção do anjo. Ante os círios que ali ardem, num voto de fé, o corpo gelado pela chuva, surge, como maré avassaladora, a salvífica força de viver.

A palavra sagrada

A destinatária se souber perdoará que eu diga aqui que escrevi para um catálogo de uma exposição de pintura de quadros seus: «O que leva um homem a retirar-se para um vida de reclusão, nas margens de um qualquer Nilo desta vida, para em confinamento e tendo-se a si só como companhia, meditar, em segredo, na sublime ciência oculta que lhe restituirá a chave da vida?».
Sabendo apenas soletrar, não tenho resposta, ela talvez, cromaticamente, ao dar-me a primeira letra.

A Casa do Fundamento



1. Foi depois do Dilúvio. Os filhos de Noé, que com ele saíram da Arca, foram Sem, Cam e Jafé. «Esses três foram os filhos de Noé e a partir deles se fez o povoamento de toda a terra». Assim reza o Antigo Testamento.

2. Dispersos pelo mundo, rumaram então os homens para o Oriente e ali, na terra de Senear, a Babilónia, encontraram um vale, onde se estabeleceram e construíram uma cidade e uma torre, cujo ápice penetrava nos céus, a que se deu o nome de Babel. Vem no Pentateuco.

3. Todo o mundo se servia, então, de uma mesma língua e das mesmas palavras e, tendo a mesma língua, era um só povo. Para a sua torre erguerem, do tijolo que é pó fizeram pedra, do mole betume, que é lama, a argamassa.
À força de serem um só, ergueram-se às portas do céu. Conta-se no Génesis.

4. Foi então que Iahweh desceu sobre a terra e disse: «Eis que todos constituem um só povo e falam uma só língua. Isto é o começo das suas iniciativas! Agora nenhum desígnio será irrealizável para eles». E, por isso, os dispersou por toda a terra e confundiu toda a linguagem. É esta, na Bíblia, a história da Torre de Babel.

5. A narrativa da Torre de Babel é uma história exemplar, uma daquelas paisagens que se atravessam em diferentes direcções e, de cada ângulo, é sempre uma visão diversa que se tem do mesmo mundo.

6. No ângulo teológico ela é perturbadora da fé, porque aflige a crueldade de Iahweh, o senhor Deus, e os erros de que o Todo-Poderoso é, afinal, capaz. Iahweh, por causa de ter o homem, que ele criara à sua imagem e semelhança, comido o fruto proibido, havia lançado sobre a humanidade a danação eterna. E isto só porque, ao comê-lo, ao pomo da árvore da sabedoria, o homem se havia tornado, afinal, «versado no bem e no mal».
Iahweh, porque havia criado a maldade no homem, sobre o que o não queria versado, e vendo que «a maldade do homem era grande sobre a terra e que era continuamente mau todo o desígnio do seu coração», arrependeu-se, ele que é o Sapientíssimo, de ter criado o homem e decretou, ele que é o Sumo Amor, a sua erradicação da face da terra, mais os animais, os répteis e todas as aves do céu. E, assim, com instinto assassino, Iahweh lançou o dilúvio sobre a terra. Só Noé escapou, porque Noé «encontrou graça aos olhos de Iahweh».

6. É assim no Antigo Testamento: por causa do pecado original de Adão, pagam todos os da humanidade, sem culpa; porque Deus se arrependeu de ter gerado a maldade no homem, que criara semelhante a si, arrasou maldosamente a humanidade.
E, ao escapar Noé, nem se entende se foi por ser «justo e íntegro entre os seus contemporâneos», se foi porque, entre os da «terra pervertida», Noé «encontrou graça aos olhos de Iahweh».
Faltava só que, tendo Deus prometido para consigo que não mais amaldiçoaria a terra por causa do homem, tendo Deus feito mesmo uma aliança com todos os homens e animando-os a que se multiplicassem, povoassem a terra e a dominassem, assim eles, com a torre de Babel, tomaram a primeira das suas iniciativas, logo Ele os confundiu e dispersou.

7. Estranha teodiceia esta, que tais achados nos traz: erro, culpa, castigo, pecado, vingança, extermínio, acaso, graça, ambição, iniciativa, perversão e poder, está tudo aqui nesta narrativa que é «das origens do mundo e da humanidade», onde nos surpreende um Deus divino mas, visto seu comportamento, humano, demasiado humano.

8. A torre de Babel que sempre me impressionou foi, porém, a que coloca existencialmente o homem perante a sua condição absurda. A ambição, o sonho de grandeza, o ideal de imortalidade, tudo o que faz do homem o ladrão do fogo dos deuses, precipitam-no na queda abismal: é a danação do homem, condenado à sua natureza mortal. A pluralidade, a diversidade, a originalidade criativa, aquilo que lança Ícaro pelos céus do sonho, exilam-no para a sua condição degredada de estrangeiro na sua própria pátria. Joguete cego às mãos do acaso, instrumento de uma natureza maligna que não criou mas é obra do Criador, o homem caminha, inexorável, e com ele tudo quanto é vivo, para o patíbulo da morte mais cruel, afogado na penitência da sua culpa.

9. Vivemos hoje um século de confusão. Porventura mais grave, e que nos irá condenar, é termos confundido, a Ocidente, a Babel simbólica com a Babilónia terrestre e termos querido, imitando Deus, confundi-la e dispersá-la.
Tal como Xerxes I [479 AC], tal como Alexandre, o Grande [331 AC], esquecemos que nas margens do rio Eufrates está o lugar sagrado da aliança entre o homem e o seu Deus, «a casa do fundamento do céu e da terra».

E no tornar te afundes


Como escreveu prodigiosamente Teixeira de Pascoaes no seu livrinho «A arte de ser português», falando aí dos defeitos da alma portuguesa: «o bom senso nacional conciliou o culto divino e o maléfico. Deus e o Demónio são incompatíveis em toda a parte, excepto em Portugal».
E se um povo, tal como um homem, possui a qualidade dos seus defeitos, pois não é já refrão proverbial da cultura tradicional portuguesa o dizer-se «contigo, senhor Diabo, antes de bem que de mal»? E, no entanto, tudo isso intriga!
Porquê, se por virtude ou por pecado, precisamente em Portugal este pacto perpétuo com o Diabo?
Julgamos que por uma particular natureza complexa do ser portugês: a sua profunda religiosidade natural e o seu intrínseco paganismo, coração e ventre num só corpo primordial.
O português, porque é sentimentalmente religioso, crê convictamente num Deus geral e total e sente, por isso mesmo, que o Diabo é uma criatura divina, produção da potência sagrada que lhe dita a sorte e o fado. Sabe, como Pessoa, o poeta de raça lusitana, mas sem nisso pensar sequer ou como isso se preocupar, que «tudo é um. O satânico é tão-somente a materialização do divino».
Mas o português, porque é vivencialmente pagão, venera deuses particulares e comporta-se como um danado, dita a sua própria queda, cede às constantes tentações do Maligno e culpa ocultos sortilégios da sina do seu penar contemporâneo.
Pactuam os portugueses com o Demónio e, fatal coincidência, com o Diabo houve nome de Portugal: é que é na encarnação rastejante da serpente que se explica e manifesta biblicamente a tentação do mal, que fez perder nossos primeiros pais. Nas escrituras, Satã é uma cobra.
E se o mesmo S de serpente o é o de D.Sebastião, a serpente alada tornada em dragão é também a pedra de armas joanina do antigo Reino dos portugueses.
E Ofiúsa o ofídeio designativo antigo do local onde hoje está Portugal.
Disse-o esplenderosamente Dalila da Costa Pereira, a abrir o prólogo de uma sua obra que simbolicamente trouxe como título «Da Serpente à Imaculada»: «Para tentar apreender o segredo da pátria portuguesa mesmo num só fragmento, será permitido começar por vê-la como telúrica, infernal e oracular, salvífica e ainda limítrofe: como terra de fronteira».
Trata-se, pois, de exorcizar a Nação dos portugueses, mesmo com aqueles que, por causa dos templos das luzes, não exergam ainda o culto das trevas.
É que o demónio não só há, como é!
E pior do que isso, o mais belo artifício do Diabo é persuadir-nos precisamente que não existe. Disse-o Baudelaire e escreveu As flores do mal.
Não acreditar que ele existe é bem mais tentador do que acreditar apenas que não existe: tenta-se assim o mais fraco homem, como a mais forte ideia.
Esconjuremo-lo, pois, e com a litania popular «vade retro Satanaz, t’arrenego maldito mafarrico, canhoto, cão tinhoso, porco-sujo, vai e não tornes e no tornares te afundes».

Às portas do Purgatório

Antes de começar a escrever, impõe-se que se diga do que se escreve e porquê sobre isto escrever.
O tema é daqueles que são aptos a gerar equívocos, quer nas almas sensíveis, quer nos que se pautam pela racionalidade. No contexto do equívoco vem o medo e a história do medo integra num dos seus capítulos mais vastos o receio do Maligno, o pavor das fogueiras infernais.
Escrever sobre ele é, além disso, entrar por um vastíssimo território, que encontramos povoados pelas mais diversas e por vezes bizarras figuras. São, por um lado, os antropólogos a exumar nas mais antigas civilizações essa presença do Diabo e a encontrá-la hoje ainda presente nos meios marginais da juventude urbana e nos círculos refinados da alta sociedade; são, por outro, os religiosos a fazerem do Céu-Inferno-Purgatório, uma forma de garantir a prevenção geral de boa conduta sem pecado do seu rebanho paroquial.
A mim o que me interessou e aquilo sobre o que recolhi alguns dados e a que dediquei alguns escritos foi à configuração dogmática do ser, qualquer que seja o seu nome e a sua forma.
Ela obtém-se e diria mesmo surpreende-se por várias formas.
Primeiro, nos textos sagrados das várias religiões e algumas espiritualidades afins e haverei de comparar, para me referir à que nos é mais familiar, a católica, para verificar em que medida há diferença no Antigo e no Novo Testamento a propósito desta figura.
Depois, nos manuais dos inquisidores, pois que o Santo Ofício habilitava os seus familiares com o necessário para conhecerem a força maléfica que gerava as heresias que em nome da fé se combatia pelo fogo. Manuais de exorcistas e com ele o Ritual Romano, tratam igualmente do assunto e a seu tempo para aqui serão chamados.
Além disso, há também a obra de todos quantos, da Magia Negra ao Ocultismo, passando pelas várias formas de conhecimento iniciático e esotérico se encontraram em algum momento ou por uma qualquer forma com esse adversário. Não serão apenas as Clavículas de Salomão, ou os livros de bruxaria que podem conter corruptelas de uma doutrina que tem o seu sistema, a sua ordem e sobretudo a sua teleologia.
Em suma, tudo isso e o mais que se verá será o «corpus» a partir do qual se construirão os textos que aqui irão arquivar-se.
Para esta noite fica apenas uma pergunta: mas existirá a criatura de que nos propomos escrever? A resposta é simples: perguntá-lo é já crer na sua existência. Como se disse a propósito do seu Outro, o indizível, nunca conheci verdadeiros ateístas, mas simplesmente anti-deístas. Mutatis mutandis, eis-nos com o problema em cima da mesa: às portas do purgatório, as benditas almas iniciam a sua viagem até aos infernos. É a descer, segundo se diz.